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Em 2026, a Reforma Tributária voltou ao centro do debate nacional como uma promessa de racionalidade: simplificar o sistema, reduzir o chamado Custo Brasil e melhorar o ambiente de negócios. Desde a apresentação da PEC 45, ainda em 2019, esse discurso se repete com pequenas variações. O novo modelo, em tese, tornaria o país mais eficiente, menos burocrático e mais competitivo.

O ponto que temos observado, porém, é que esse debate frequentemente mistura dois conceitos que precisam ser claramente separados: arrecadação e gasto público. Não são a mesma coisa. E tratar um problema como se fosse o outro tem custado caro ao país — especialmente para quem empreende, investe e gera renda.

O sistema tributário brasileiro segue sendo um dos mais complexos do mundo. Na prática, empresas gastam algo próximo de 1.500 horas por ano apenas para cumprir obrigações fiscais. Em países da OCDE, esse número gira em torno de 150 horas. Essa diferença não é apenas estatística: ela se traduz em perda de produtividade, aumento de custos, insegurança jurídica e menor capacidade de crescimento.

É nesse contexto que a Reforma Tributária se mostra necessária. Ela pode — e tende a — simplificar regras, reduzir litígios, organizar melhor a cobrança e diminuir o custo operacional de estar em conformidade. Tudo isso é positivo. O alerta importante é outro: eficiência na arrecadação não significa, automaticamente, eficiência no gasto.

A Reforma Tributária atua, essencialmente, do lado da receita. Ela organiza como o Estado arrecada. O que ela não garante, por si só, é que esses recursos sejam bem aplicados. O gasto público diz respeito às escolhas feitas depois que o dinheiro entra no caixa. Assim como em qualquer empresa ou mesmo em uma família, aumentar a receita não resolve nada se as despesas continuam desorganizadas, crescentes e mal direcionadas.

O papel do Estado, em regra, é devolver à sociedade aquilo que arrecada na forma de serviços públicos e infraestrutura. Educação, saúde, segurança e logística são exemplos básicos dessa devolução. O que temos visto, porém, é uma inversão preocupante dessa lógica. Mesmo com recordes sucessivos de arrecadação, os resultados entregues à população seguem aquém do esperado.

Basta observar a realidade: gargalos logísticos persistem, a infraestrutura é insuficiente, a mobilidade urbana se deteriora, a educação enfrenta problemas estruturais e a insegurança pública cresce. Tudo isso impacta diretamente o ambiente econômico. Empresas operam com custos mais altos, menor previsibilidade e mais riscos.

O chamado Custo Brasil não está apenas no valor dos tributos pagos, mas na ineficiência do sistema como um todo. A falta de investimentos estruturantes obriga empresas a criar soluções próprias para problemas que deveriam ser públicos. Dependência excessiva do transporte rodoviário, ausência de uma malha ferroviária eficiente e vias precárias de escoamento da produção são exemplos recorrentes.

Há um paradoxo evidente: o Brasil é referência mundial em tecnologia de arrecadação, fiscalização e controle tributário, mas não entrega infraestrutura compatível com esse nível de eficiência fiscal. Na prática, arrecadamos como país desenvolvido, mas entregamos serviços de qualidade muito inferior.

Esse cenário gera um efeito perverso que orientamos nossos clientes a considerar com atenção. O contribuinte acaba pagando duas vezes. Paga impostos elevados e, ao mesmo tempo, precisa contratar plano de saúde, previdência privada, segurança particular, morar em condomínios fechados ou investir em proteção adicional. Quem tem renda consegue se proteger parcialmente. Quem não tem, sofre diretamente os efeitos da ausência ou da baixa qualidade dos serviços públicos.

O resultado é o aprofundamento das desigualdades e a sensação generalizada de que o retorno dos tributos não é proporcional ao esforço exigido do contribuinte.

O déficit público, por sua vez, não é um problema recente nem pode ser atribuído a um único governo. Trata-se de uma questão estrutural. O Brasil arrecada muito, mas gasta ainda mais — e, muitas vezes, gasta mal. Instrumentos como a Lei de Responsabilidade Fiscal e o novo arcabouço fiscal tentam impor limites, mas limites formais não garantem eficiência. O ponto central continua sendo como se gasta e quais prioridades são escolhidas.

Existe, ainda, uma zona cinzenta importante nesse debate. Muitas despesas são legalmente obrigatórias, o que reduz a margem de manobra do gestor público. Ainda assim, isso não elimina a necessidade de avaliar eficiência, qualidade do gasto e retorno social. Cumprir a lei não é sinônimo de gastar bem.

Nesse contexto, é um erro tratar política e democracia como inimigas. A Reforma Tributária aprovada é fruto de um processo democrático, com negociações, conflitos e concessões. Democracia não é ausência de divergência; é a convivência entre visões diferentes mediada pelo diálogo institucional. Demonizar a política apenas afasta a sociedade das decisões que impactam diretamente sua vida econômica.

Temos observado que o controle do gasto público passa, inevitavelmente, pela participação da sociedade. Se a arrecadação segue regras técnicas e legais, o gasto precisa ser fiscalizado por meio do voto consciente, da transparência, do acompanhamento das contas públicas e da participação no debate. A omissão também tem custo — e costuma ser alto.

A Reforma Tributária é necessária e tende a trazer avanços relevantes. Ela pode simplificar o sistema, reduzir burocracias e melhorar a eficiência arrecadatória. O ponto de atenção é acreditar que ela, isoladamente, resolverá o déficit público. Isso não acontecerá. Sem um debate sério, contínuo e técnico sobre gasto público, qualquer ganho de arrecadação será rapidamente absorvido por uma estrutura de despesas ineficiente.

Em última análise, o sucesso da Reforma Tributária depende de um movimento paralelo: amadurecer o debate sobre como o dinheiro arrecadado é utilizado. Arrecadar melhor ajuda. Mas não substitui a necessidade de gastar com eficiência, responsabilidade e foco em retorno real à sociedade. A solução não está apenas em arrecadar mais — está em governar melhor.

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